Aviso prévio: esta não é uma crónica como as que
habitualmente escrevo. Não terão uma enormidade de fotos, não terão histórias
de cidades e em breve perceberão porquê. A que mais se assemelha, será talvez a
de Liverpool 2006.
Como alguns sabem, em Dezembro, alturas do sorteio, tinha
saído há pouco tempo de Portugal para o
estrangeiro por razões profissionais. Encontrava-me na região de Lyon
quando saiu o Muro Amarelo como adversário do Benfica. Há anos que sonhava ir
lá, nunca tinha acontecido e agora que não tinha garantias de poder ir, aí
estava ele: o Borussia de Dortmund. Fiquei triste confesso. Não era só não
saber da disponibilidade profissional para ir. O próprio local onde estaria
sediado em Março não estava definido e assim nada dava para organizar. A única
certeza com que fiquei, foi que compraria bilhete pois sem bilhete nunca
poderia ao jogo. Com bilhete, seria para tentar à última. E mal sabia eu que
seria mesmo até à última.
Após a época festiva, passada em Portugal, regressei a
França. Desta feita para o lado contrário do país, junto à costa, em Rochefort.
Os aeroportos mais próximos daqui são os de Bordéus e de Nantes, ambos a 170km. Fui estudando as várias formas de ir
daqui de Rochefort para Dortmund e, no dia 2 de Feveiro, após ter a garantia
que continuaria aqui na semana de 8 de Março, marquei viagem de Bordéus para
Charleroi, via Ryan Air, com reserva de carro, no qual seguiria para Dortmund.
A ideia nesta altura era viajar sozinho, mas a reserva do carro podia sempre
ser alterada caso encontrasse alguém com quem seguir viagem. Foi o que acabou
por acontecer, pois havia 8 amigos que estariam em Bruxelas, com dificuldade em
alugar carro, e ficou combinado que iriam ter a Charleroi, onde eu faria um
upgrade para a carrinha de 9 lugares na qual seguiriamos para Dortmund. No regresso,
eu dormiria lá num canto de um dos quartos de hotel deles em Bruxelas, seguindo
depois para Charleroi e voltar para França. E assim ficou tudo certinho.
O tempo foi passando, a ansiedade e a saudade dos meus foi
aumentando. Até que chegou a semana do jogo. A semana mais esperada. Dia 6 de
Março cai a bomba. Greve dos controladores aéreos em França com incidência na
costa atlântica. Todos os voos da Ryan Air de e para Bordéus estão a ser
cancelados. Contacto imediatamente a Ryan Air que a única coisa que me podem
dizer é que só sabem os voos que foram
cancelados nesse dia e nada podem garantir.
Na segunda feira às 18:00 francesas saem os voos cancelados de terça
feira. De nada servem, pois o meu voo não existia nesse dia. Mas tudo o que é
Ryan Air continuava a estar cancelado. Começo a procurar alternativas, porque
não era só por mim. Era pelos meus! Estavam dependentes de mim para ir para Dortmund
e fosse como fosse eu não os poderia deixar para trás. Eu tinha de ir cumprir o
meu sonho e eles iriam comigo.
Terça feira, véspera de jogo, foi passada numa ansiedade
tremenda. A Ryan Air não dava notícias, diziam que nada sabiam. Mas às 16:00
veio o primeiro sinal. O voo Easy Jet de Bordéus para Bruxelas, marcado para o
dia do jogo, tinha sido cancelado. Resolvi arriscar. Mesmo que não houvesse
decisão até lá, quando saísse do trabalho ás 17 iria tratar da minha viagem.
Assim foi. Saí às 17 e fui directo à estação dos comboios de
Rochefort. Lá chegado comprei viagem de Surgères para Bruxelas.
Surgères é uma terra a cerca de 30 km daqui, onde apanharia
o TGV às 5:51 do dia do jogo e chegaria a Montparnasse às 08:49. Teria então
de atravessar Paris (linha 4 do Metro) até à Gare du Nord, onde apanharia outro
comboio, o Thalys, rumo a Brusselles-Midi às 10:01, chegando à capital belga às
11:23. Aí teria o meu pessoal, levantaríamos os carros ou carrinha, seguiriamos
para Dortmund e voltaríamos após o jogo. O regresso seria feito da mesma forma,
no dia a seguir ao jogo, com o primeiro comboio a ser apanhado em Bruxelas às
7:43 da manhã, e chegando a Surgères às 13:14. Era duro ? Era. Mas é o Benfica.
E em véspera de jogo a minha presença estava, agora sim, garantida a 100%.
Dia de jogo. Acordo às 4:30, banho tomado, pequeno almoço
também, e pego no carro. Saio de casa perto das 05:00 e a viagem acaba por ser
mais rápida do que o esperado, chegando à gare meia hora antes do comboio, que
traz um atraso de 5 minutos, nada de preocupante para as ligações que se
seguem. A viagem até Paris corre normalmente, o atraso é recuperado, o único
problema é o sono e o facto da carruagem encher em Poitiers, num momento em que
estava quase a adormecer, o que daí para a frente se tornou impossível.
Com a chegada a horas a Paris-Montparnasse, desco do comboio
para o Metro e vejo que a linha 4, que tinha de apanhar, está fechada em
Montparnasse. Informo-me e dizem me para apanhar a linha 6 até Denfert-Rochereau
e depois apanhar o RER B até à Gare du Nord.
Apanho então a linha 6 até à estação em questão e aí, e vez de apanhar o
RER B, resolvo apanhar o metro na Linha 4 novamente. Um erro, que fez a minha
viagem tornar-se mais demorada (mais estações) e fastidiosa. A linha está em
obras e o percurso é feito em marcha lenta, mas mais de uma dezena de estações
depois lá chego atempadamente à Gare du Nord, tendo tempo de ir ao Starbucks
buscar o Frapuccino da praxe antes de embarcar para o Thalys, um comboio com
excelentes condições, bem melhor que o TGV onde tinha viajado mesmo antes. À
entrada do comboio uma passagem pelo Raio X e detetor de metais, controlo de
entrada no comboio e siga para Bruxelas. A viagem de hora e meia fez-se bem, e
à hora prevista chegada a Bruxelas e dirijo-me para o hotel, situado a 1 km,
onde se encontravam os companheiros de viagem. Acordar alguns preparar tudo e
seguimos para a Gare onde fomos levantar os carros já com algum atraso. Eram
perto das 13:30 quando finalmente arrancámos, e até sair do caos de Bruxelas à
chuva ainda durou um bocado.
Daí até Dortmund foi sempre a rolar na estrada, com apenas
uma paragem relâmpago, e muito trânsito a partir de Dusseldorf, o que nos levou
a adotar caminhos alternativos, bem mais longos, mas que se tornaram mais
rápidos, requerendo apenas um cuidado tremendo com os constantes lençois de
água na estrada. À chegada a Dortmund, fomos diretos ao estádio, deixando o
carro lá no parque e resolvi ir até ao centro da cidade. Tinha de sentir o
ambiente no centro da cidade, mesmo que já não estivesse ao rubro pois faltavam
apenas 3 horas para o jogo, mas valeria sempre a pena, até porque grandes
amigos se encontravam por lá,
Apanhei o metro e em menos de 10 minutos encontrava-me no
centro. Perfeito. Encontrar os amigos foi fácil. Estavam num restaurante
inundado de Benfiquismo, saboreavam óptimas Pints. O ambiente estava de sonho.
Tinha finalmente chegado ao Ambiente Benfica que eu tanto amo. Que eu vivo
intensamente e que me faz sorrir todos os dias. E que muita falta me tem feito
nos últimos 3 meses por razões que já falei neste blog. Conversa metida em dia,
um saltinho à loja do BVB, encontro com outros colegas destas aventuras e
seguir para o estádio.
Mais uma curta viagem de 10 minutos, começar a colar os
novos autocolantes iguais ao meu pano que tanto gosto, e a chegada ao estadio.
Ali estava ele, já em cenário de dia de jogo. Agora sim eu estava completo.
Estava junto ao Estádio, junto ao meu Benfica, e com o meu povo! Com a minha
gente! Não poderia estar melhor em mais lado nenhum. Fotos, conversa com mais
pessoas, compra de cachecóis, não tendo lamentavelmente arranjado um oficial do
jogo, e a malta foi entrando. Acabei por ficar cá fora à espera dum amigo o
levou a que entrasse já bem perto do ínicio do jogo, logo após o You’ll Never
Walk Alone, que tive oportunidade de ouvir do lado de fora do estádio. Alguma
confusão à entrada, à qual me consegui esquivar subida das escadas a correr e
lá estava eu a ver as equipas a entrar em campo. No muro amarelo, uma
coreografia de sonho que devia fazer corar de inveja os Forlans da Luz desta
vida, do nosso lado uma mancha vermelha. Um sector à pinha ansioso por mostrar
o que é o Benfica. E nas restantes bancadas (à excepção da SudTribune,
obviamente), bem visiveis as manchas encarnadas de Benfiquistas por todo o
estádio. Tudo estava pronto. E ao apito inicial já o sector visitante se
encontrava ao rubro.
Começámos com tudo, e fomos abalroados aos 4 minutos.
Sofremos logo um golo e tal como em Munique há um ano, seguimos na nossa. O que
nos move, é o Benfica. O que amamos, é o Benfica. E do apito inicial até poucos
minutos antes da saída do estádio, na bancada, só deu Benfica. Não foi nenhuma
vitória moral. Perdemos 4-0. Perdemos bem, contra uma equipa que se mostrou
largamente superior na eliminatória, mas como diz o João Gonçalves na sua épica
crónica no Red Pass, discutimos esta eliminatóra contra o colosso Borussia
durante mais de 75% da mesma. E na bancada tratamos da questão dos adeptos
alemães nao terem achado o ambiente na Luz nada de especial. Pois bem, o dia 8
de Março foi especial. 11 anos depois de Anfield Road eu voltei a chorar. De
alegria por cumprir um sonho, de orgulho pelo que vivi e nunca tinha visto nos
meus 19 anos de bancada. De 1998 até hoje nunca vi nada assim. E foi por isso
que me doeu a alma de algumas das pessoas que mais mereciam estar ali, viver o
que eu estava a viver, não poderem ter ido. Eu acho que já merecia viver um
ambiente assim, nao vou ter falsas modéstias. Mas há outros que mereciam tanto
ou mais do que eu e não o viveram por razões de força maior. E era por esses
que eu tinha de fazer tudo para ir, era por esses que todos de nós tínhamos de
dar tudo. Dar tudo pelo Benfica, por nós, e por todos os que davam tudo para lá
estar. É esse que tem de ser o mindset. Porque E Pluribus Unum não é só um
lema, é um modo de vida.
E assim foi. Foi mágico. Foi sublime. Foi para sempre. E vai connosco para a
cova. Os 4-0 ficaram na história? Ficaram. Tal como os 5-0 da década de 60 que
os alemães recordaram e homenagearam antes do jogo, o que só engrandece o
Benfica. Mas o reconhecimento dos da casa, dentro do campo e fora dele, ao que
a maravilhosa massa adepta do Benfica fez, não tem palavras. Ter vivido aquilo
muito menos. Ter superado tudo para lá poder ter estado faz de tudo uma
odisseia.
No final do jogo deu-se o regresso aos carros e a partida
para Bruxelas. Com menos transito, com menos atalhos e sempre a andar, e com os vídeos do estádio que nos iam chegando a passar em loop. Chegada
a Bruxelas já depois das duas da manhã, entregar, deixar os carros na garagem
da rent-a-car depois de os atestar e ir dormir 3 horas, ou nem isso, para a ponta da cama
disponível num hotel (obrigado Tomás, foram 3 pareceram 10). Às 7 da manhã já
estava de saída do hotel rumo à estação. Chaves de carro entregues e comboio
rumo a Paris apanhado.
À chegada a Paris, com uma hora para chegar a Montparnasse,
sou abordado pela polícia à saída do cais de chegada.
“Bom dia senhor, pode acompanhar-nos ao controlo de segurança
?”
“Com certeza, perdoem-me só o ar apressado, mas tenho TGV em
Monptarnasse dentro de uma hora”.
“Ok. Pode facultar-nos a sua identificação?”
“Com certeza”
“É belga?” perguntam enquanto tiro o Cartão do Cidadão
“Não. Sou português. Venho de Dortmund onde fui ver o
Benfica na Champions”.
O agente olha para o cartão do cidadão e diz: “Ok. Então boa
viagem”.
E sigo sem ter de abrir a mala, o que me iria atrasar um bom
bocado tal o caos que ela estava.
Desco então para o RER B (desta vez adotei a sugestão dada
na primeira viagem) e a estação estava um caos. Falam em atrasos nos dois
sentidos. Passa a primeira composição mas não consigo entrar na mesma, e começo
a ficar preocupado. Logo de seguida vem a segunda composição e entro. Fico um
pouco mais aliviado.
Em Denfert-Rochereau mudo para o metro (linha 6) que não
está melhor. Mais uma vez falho a primeira composição mas consigo entrar na
segunda. Chego a Montparnasse 12 minutos antes da partida do TGV e embarco
imediatamente. Caso tivesse sido revistado na Gare du Nord, não sei não...Tudo está bem quando acaba bem.
As últimas 3 horas de viagem estão a correr bem até que na
última paragem antes da chegada somos avisados duma perturbação na linha.
Ficámos 40 minutos parados até arrancar. Acabo por chegar ao destino (Surgères)
apenas às 14:00. Já nem vou a casa. Pego no carro e sigo para o trabalho.
Estava oficialmente concluída a 26ª ao estrangeiro para ver o Benfica.
Se valeu a pena ? Vale sempre. Pelo Benfica e pelos meus vale sempre a pena. E
só tenho vontade que chegue a 27ª.
Um eterno obrigado a todos os que sempre me fizeram
acreditar que este sonho seria possível, mesmo quando parecia tudo menos isso.
Belá Guttmann sabia bem o que dizia quando falava dos adeptos do Benfica. E
Mário Wilson ainda sabia mais. Não deixem nunca de lutar pelos vossos sonhos porque por mais improváveis que pareçam, podem sempre acontecer.
Que viva o Benfica!